As relações humanas me apavoram. O perigo sempre vem com face de candura e mente maquiavélica lhe chamando para brincar. E muitas vezes você vai sem saber para onde.
É difícil se manter equilibrada ao notar o tanto de pessoas dissimulas a sua volta. Você não sabe qual doce é real ou amargo porque as pessoas, elas não vem com rótulos ou prazo de validade. É preciso provar para saber.
Como os espinhos das rosas, não sabemos até que ponto vai a defesa de cada um. Se a defesa for o ataque - o que para mim, diz muito sobre quem o faz - prefiro manter-me distante.
E de tão distante, hoje já não sei mais definir a linha do egoísmo. Não sei me dizer se estou antes ou depois. Sei que minhas defesas são em metros quadrados.
Então, percebo que recuar pode ser tão sinônimo de atacar como o silêncio é do grito. Mesmo opostos, aqueles doem, estes ensurdecem.
Nascemos juízes e reis de nós mesmos, pequenos aprendizes de sentenças e coroar.
Apavoram-me as relações humanas.
Eu não aprendi a rezar.
"No livro de Taylor Hartman: O código das Cores. Eu sou Azul. O azul é uma cor triste, fugidia, embaçada... Como o céu das paisagens impressionistas. Os azuis são motivados pelo altruísmo, diz. Os azuis buscam a intimidade. Os azuis preferem perder do que trapacear. Os azuis, como eu, não fedem nem cheiram..."
Não entendo de politica. Não sei escrever sobre religião. Quanto a educação, só me resta esperanças. Sobre as leis dos homens, tranquei meu curso na faculdade. Sobre querer ser poeta, gosto de te-los em minha estante. Tenho dificuldade de terminar livros, estudos, conversas. Sempre quero voltar para o sonho - independente de ser ruim ou bom. Finais: literalmente não sei lhe dar com eles - o que explica meus textos serem grandes, minhas conversas intermináveis, meu desconsolo ao fim de filmes e até a troca de sabonete em barra por liquido. Não sei variar o cardápio, nem ser amigável com quem me faz mal... Não sei disfarçar meu humor, nem ser menos medíocre. Meu talento oculto estar em ter boas desculpas para me confortar do meu descompromisso. Na maioria das vezes, prefiro estar apenas em minha companhia. Tenho medo de psicanalise, pois posso não suportar descobrir tudo sobre mim. Afasto-me de pessoas por insegurança e minha defesa ágil só mostra que sou mais frágil que qualquer um. Abandono para não ser abandonada. Do meu choro saem os espíritos ruins. Talvez eu esteja deixando de ser azul...
Os ciclos vão
cumprindo a sua sina de abrir e fechar enquanto eu tento me adaptar o máximo
que posso para que a seleção natural da vida não deixe em extinção mais partes
boas de mim. Não queria escrever agora, mas isso também faz parte da minha luta
contra esta seleção. Luto contra os planos que escorregam cada vez mais rápido
pelos dedos. Luto contra um futuro incerto que se aproxima na velocidade da luz
da minha rotina – luto, mas luto querendo ser aliada.
Olho para
cima. Respiro fundo. Trago o lacrimejar antes que seja tarde. É preciso ser
forte na hora do sim, na hora de ouvir e dizer a verdade. É preciso ser forte
na hora do não, do “não quero mais ficar”. É preciso ser forte nas decisões,
nas decepções, nas despedidas. É preciso ter forças na hora de se arrepender e
desculpar-se. Ahh é preciso ter forças quando se precisa dos cuidados de quem
não vem, quando o abraço que se quer não está, quando a palavra da qual precisa
fica muda. É preciso força para segurar o choro na hora H, na hora de falar, na
madrugada, na solidão...
Mas, não
precisas ter dó se de repente me veres chorar baixinho por aí: mais forte é a
mulher que chora. E, no meu caso, são só algumas lágrimas que estou devendo a
vida pelos tantos sapos engolidos a seco. Vez e quando, faz-se necessário colocá-las
em dia antes de me vestir com meus melhores sorrisos novamente.
Eu já falei
que tenho descoberto uma nova eu dentro de mim? No inicio era como uma terceira
perna, que assim como a terceira perna de G.H. também me impedia de caminhar. Entretanto,
eu tenho me adaptado bem. Descobri que ela também é forte. Descobri que ela
também me segura para não cair. Descobri que ela também sabe sorrir... E sabe
sambar, ahh como sabe! Talvez, já seja até parte da minha evolução... Talvez,
já seja a própria vida me dizendo para ser mais forte se não quiser ser comida
pelos leões e as cobras do dia-a-dia.
Acho até
que estou indo bem... Só peço aos novos ciclos - que começarão em breve - que
não sejam tão astuciosos e que não me obriguem a me retirar da comodidade dos
meus dias como quem tira um bebê com fome do peito da mãe, como quem separa um
casal apaixonado, como quem arranca de uma mãe um filho, como quem amputa um
membro sem necessidade, como quem tira doce de criança, como quem tira sorrisos
de rostos alheios... Por que talvez, dessa vez, eu não saiba me adaptar.
É aí que a
crise vem: uma hora sorrindo, mas por dentro uma impaciência que pode vir a
tona a qualquer momento. O mal é que na maioria das vezes vem em cima de quem mais
se gosta. É uma irritação por besteira, ou talvez não seja besteira. Os nervos tão
a flor da pele que me fazem querer ir embora por qualquer contradição.
Eu não
queria que fosse assim, eu não queria está assim. Talvez seja porque pela
primeira vez na vida eu quis fazer diferente. Talvez, por achar que estou dando o meu máximo e fazendo o melhor
de mim, eu esteja cobrando tanto - logo eu que sempre detestei cobranças.
É aí que a
crise volta: quem é essa que habita meu corpo agora? Será uma parte de mim que
eu desconhecia ou será que é uma invenção de eu mesma feita por mim? Eis o
perigo: porque tantas dúvidas e tantos talvez?
Essa falta
daquela antiga eu que sabia o que queria a cada hora, daquela que não tinha
muitos dragões dentro de si e os poucos que tinha, tornava-os de vento. Essa falta,
falta não, saudade mesmo - no sentido literal e melancólico da palavra – que eu
sinto do meu eu de sempre, está corroendo ainda mais esse meu eu-desequilibrado-de-agora.
É como se
meus dois “eus”, o antigo e o atual, fossem duas pessoas distintas dentro de
mim: onde o eu antigo exibe suas lindas pernas para cima, em uma confortável cadeira
a beira de uma praia azul, descansando tranquilamente de mim; enquanto, o eu
atual se esforça para ser como o antigo, se roendo e me corroendo de inveja de
quem eu já fui.
Eu mesma -
e quando falo eu mesma, refiro-me a mim como um todo: os dois “eus” juntos e se
completando - não sei o que fazer. É certo que por mim, mandaria embora esse eu
atual. Tomar-me-ia assassina ou suicida de apenas metade...
Então, distancio-me
um pouco dessa confusão, dessa chuva, dessa noite. Procuro olhar novamente para
fora e quase não consigo abrir os olhos com tanto sol. Eu não sei mais como
caminhar no mundo real. Não sei mais como conversar com as pessoas. Não consigo
mais “levar na esportiva” piadinhas que me envolvem...
É tudo tão simultâneo
que enquanto o mundo gira lá fora e um eu relaxa, o outro não para de
esbravejar dentro de mim nem por um segundo, tornando assim, difícil para “mim”
poder escutar qualquer coisa com nitidez, ou mesmo pensar com sobriedade, quiçá
agir e julgar as ações com justiça e clareza como sempre fiz.
É uma luta
interna. É uma ânsia sem fim. São acontecimentos importantes chegando. São
provas decisivas. É um ano decisivo. É um medo de um novo ao qual não terei
nenhum controle. É o medo de perder tudo a todo o momento: lutas, conquistas,
pessoas, espaço.
É tudo medo
de cortar o lado ruim e descobrir que sem ele o bom não existe!