"Nunca é alto o preço a pagar pelo privilegio de pertencer a si mesmo." Nietzsche

Indy(sível)

"Sei que ela pode ser mil
Mas não existe outra igual.."

  Uma coisa assim, bem a cara dela. Alguns acham tosco, outros acham bonito. Há quem só veja loucura, mas mesmo assim admira e apaixona-se desejando, sobre tudo, não sair nunca mais do lado dessa felicidade que ela deixa transparecer no riso frouxo – mas que menina feliz! Rir por toda besteira – comentam. Ela rir. Rir muito mesmo, mas nunca foi de desespero.
 Ela ama rir das coisas engraçadas, embora também veja graça onde quase ninguém ver. Ela não consegue não viver de rir quando se depara com uma expressão de brabeza no rosto das pessoas, principalmente as que ela ama. Porque apesar de a chamarem de boba por causa disso, é isso que ela acha bobagem: zangar-se e perder o bom humor por qualquer coisa que não vale a pena. Então, ela rir. E rir ainda mais quando as pessoas não entendem como ela pode rir tanto! Quando a imitam então, o riso parece que nunca vai acabar, acha engraçado que riam de suas bochechas, de quando enrola a língua e as palavras quase não saem. Ela só rir tanto assim porque é feliz! Porque tem pessoas que a ama ao seu redor, porque acredita em fantasia, em unicórnios, em “felizes para sempre”...
Ela ama bom humor. Palhaçada. É apaixonada pelo bobo da corte – mesmo não o vendo mais. Ela é apaixonada por teatro, espetáculos e cinema. Mas não gosta de circo, pede pra ir e depois que vai fica triste, por isso não gosta: porque detesta tudo aquilo que a encanta e depois... Depois vai embora. Ela é sensível, é sentimental demais, é meiga e banca a psicanalista dos amigos quase sempre. Ela sabe o que quer... E é exatamente por isso que se veste com uma armadura quase impenetrável, pela qual, somente poucos descobrem o que tem por traz de uma expressão de seriedade e aparência boçal com a qual ela caminha disfarçando suas fragilidades pelas avenidas.
Ela rir, rir... Mas chora. E como chora! Chora quando ler coisas bonitas, quando recebe mensagem de amigos distantes, de seu namorado ou de sua mama ao longo do dia, só para dizer que a ama e que Papai do Céu estar a lhe abençoar; chora vendo de volta pra minha terra, assistindo Raul Gil, assistindo romances; chora com música boa, com grandes interpretes e composições; se emociona com poesia, com artes plásticas, com arquitetura, com medicina, com dança; chora ao ver sonhos realizados ou sonhos destruídos; se indigna e chora com a pobreza, com a fome, com as drogas, com a ignorância; chora pelos outros, sente a dor dos outros, toma as dores dos outros... - E as suas dores? Perguntam-na. Pelas suas dores ela chora e se indigna também, mas é baixinho, no escuro de seu quarto, no frio da madrugada, no consolo de seu edredom, nos soluços abafados pelo travesseiro entre os sábios conselhos do silencio e de seu playlist...
E depois do sufoco ela dança! Ah, ela dança tanto quase quanto ela rir... Dança sem parar. Dança com qualquer batuque. Dança o que sabe e o que não sabe: mexe a cabeça, os ombros, as cadeiras, os pezinhos e só não dança mais ainda, porque é tímida. Ela dança sozinha, dança acompanhada, dança até sem música alguma. É imperativa e gosta de contagiar os outros com sua imperatividade sútil... Ela se apega rápido e se desapega mais rápido ainda. Ela gosta de se prender a certas coisas, mas veja bem: as chaves ela carrega consigo! Não tente fazê-la de boba. Caso ela se coloque sobre suas mãos, ame-a com cuidado. Veja como se segurasse uma geleia: frágil, escorregadia: ela vai ficar inerte enquanto sua mão estiver aberta, enquanto ela se sentir livre.  Ela é flexível, é compreensiva, é paciente, mas chega a ser chata de tanto que insiste em um assunto até conseguir o que quer... Mesmo assim, embora seja insistente e não desista fácil, ela também cansa fácil daquilo que não a faz bem. E quando ela se cala... É hora de se preocupar!
Ela tem asas feitas de amor, mas não se preocupe com isso, ela não as usa a menos que se sinta sufocada! Ela é de tirar o folego mesmo, de tirar a paciência, de tirar o mal humor... Ela se realiza com grandes amores, é viciada em paixões avassaladoras. Ela ama fazer novas amizades e boas amizades ela reconhece de longe. Ela é ciumenta, possessiva, atenciosa e cuidadosa demais, mas disfarça. Ela é ignorante, é sarcástica, é honesta, mas é doce, é amiga, é companheira. É dessas que quando gosta de alguém, defende com unhas e dentes. Ela é só ela e mais ninguém. Ela fala pelos cotovelos e conta histórias, conta piadas, conta clichês, mas mesmo assim, escuta mais do que fala. É tão boa ouvinte como conselheira. Ama ouvir as pessoas, ouvir sobre suas vidas, saber o que elas têm a dizer. Contudo, não a confunda: ela não suporta fofoquinhas, mesquinharia. Não suportam pessoas que falam o tempo todo da vida alheia porque não há nada de relevante em si. Então, entrega os maus olhados ao seu Pai Celestial, O Grande Arquiteto.
O único problema disso tudo, é que de tanto que ela rir, suas lágrimas se perdem nos labirintos de seu coração e não sabem sair de dentro dela quando precisam; de tanto que dança, alguns acham que ela não tem problemas, não sofre, não se importa, não se entristece com as coisas; e, de tanto que chora, alguns nem se sensibilizam mais, nem se deixam comover mais e nem se quer lhe abraçam mais. Devem mesmo achar que ela se basta por si só... E pensando bem, era isso mesmo que ela queria que pensassem dela: autoconfiante. Então ela rir disso tudo e continua...